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Noticias

A existência de Deus e o sofrimento humano

Publicado el 26 abril, 2021
Artigos

A existência de Deus e o sofrimento humano

Celso Júlio da Silva LC

https://subdir.legionariosdecristo.org/br/wp-content/uploads/sites/9/2021/04/Artigo-Celso-1-Sofrimento.mp3

Papini num dos seus escritos fala de um homem que se encontra no meio da praça de um povoado. Quer conhecer algum lugar interessante daquele povoado e começa a caminhar numa rua. Depois de alguns minutos caminhando, ele chega no final da rua e se depara com um grande hospital, branco, cheio de doentes, um lugar triste. Volta para a praça e resolve pegar a rua oposta. No final da segunda rua se depara com uma fortaleza marrom, grades nas janelas, suja, feia, era uma cadeia. Volta de novo à praça do povoado e pega outra rua. Não passa nem um minuto e a rua acaba num lugar cheio de pedras fincadas no chão com inscrições e nomes de muitas pessoas: um cemitério. E conclui Papini: a vida do homem sem Deus é como a deste personagem que percebe que a sua vida só tem um destino: a morte. Sim. A morte refletida num hospital, numa cadeia e num cemitério. Os homens mais infelizes sempre terminam num desses lugares. E no cemitério, todos.

Não estou de acordo com a afirmação de que a morte é o trágico fim do ser humano. Porém, estou de acordo que uma vida sem Deus só produz tristeza e termina na morte eterna da alma. Sempre num nível intelectual é fácil provar que Deus existe. Muitos pensadores cristãos e não cristãos já tentaram. Santo Tomás de Aquino com as cinco vias, Santo Anselmo de Aosta com o seu único argumento. Pensadores como Pascal, Leibniz, etc. Mas no fundo a aceitação de um ateu de que Deus realmente existe sempre foi e será na história da humanidade uma graça.

Aceitamos que existem tantas coisas que não vemos nesta vida fazendo simples analogias, comparações, e inclusive fazendo atos de fé de algum jeito. Acreditamos sem ver, sem tocar, sem ouvir. E sempre foi um esforço maior para muitas mentes buscadoras da verdade provar que Deus não existe do que provar que Ele existe. Quem não aceitar a graça de crer que Deus existe e age no mundo e na nossa vida é como o personagem do Papini que nunca encontrará a felicidade com as suas próprias forças. Sempre terminará infeliz. A humildade de qualquer pessoa sensata e inteligente se assemelha à humildade das crianças. Como aquele rabino que, colocando à prova um menino, disse para ele que se ele provasse onde estava Deus lhe daria uma moeda. Diante daquela proposta o menino respondeu: e eu te darei duas moedas se você me mostrar onde Deus não está.

No final das contas chegamos sempre a uma conclusão inevitável: Deus existe. Queiramos ou não. Um escritor húngaro conta que certa vez estavam dois bebes gêmeos dentro do útero da mãe. E um disse para o outro: “fora dessas paredes e deste mundo escuro não tem nada. Jamais vamos sair daqui. Não esperemos nada mais do que escuridão e morte”. E o outro respondeu: “você está enganado. Algum dia vamos sair daqui. Lá fora há luz, há uma vida que nos espera. Há uma mãe que vai nos acolher e vai cuidar de nós”. E o outro rindo disse: “você está brincando. Você acredita nisso? Não existe nada fora desse lugar. Quem é essa mãe? Onde está que não a vejo, que não a toco, que não a escuto? ”. E o que acreditava retrucou: “não necessitamos ver a nossa mãe. Se estamos vivos aqui dentro é graças a esse tubo que está conectado ao nosso umbigo. O nosso alimento vem da nossa mãe que nos ama e nos acolherá. E se você ainda tiver dúvidas, seria bom guardar um pouco de silêncio, levantar ouvido e escutar a sua voz, às vezes ela fala e podemos escutar a sua voz no silêncio. Só basta nos silenciar e escutar”.

Porém, os seres humanos não nos questionamos muito sobre a existência de Deus, fazemos isso só quando experimentamos a dor física ou moral e também a morte de uma pessoa querida. O problema de Deus é em primeiro lugar o problema que cada um de nós coloca: o problema do mal. Certa vez um jovem me disse que é fácil confundir a bondade de Deus com o mal do mundo. Deus não quer o mal, mas o permite. E Ele é tão bom que sabe tirar coisas boas de tantos males. São João Paulo II na Salvifici doloris afirma que às vezes a dor, o mal, a doença, as contrariedades da vida, fazem com que os seres humanos nos tornemos mais solidários e mais sensíveis. Isto acontece porque Deus quer participar do abismo mais profundo do sofrimento humano que é a morte e a morte de Cruz.

Cristo- escreveu um poeta polonês- não veio ao mundo para explicar o sofrimento, mas para preencher o sofrimento humano com a sua presença. A dor e a morte são experiências que todos os seres humanos, cedo ou tarde, experimentamos. Quem não crê em Deus parece que, ao experimentá-las, está bebendo um veneno. O que crê em Deus e sabe que o mal não é a última palavra, tem a certeza de que a dor e a morte são um remédio que nos salva, que nos cura, que nos conduz ao nosso destino: o céu. Pois, qual é a prova de que a bebida que alguém está me oferecendo não está envenenada? A prova é se essa pessoa antes beber na minha frente desse copo! E isto foi o que Cristo fez! Bebeu diante dos homens e do mundo do cálice do mal mais profundo para nos mostrar que a dor e o sofrimento não são venenos, mas caminhos para chegar ao Paraíso.

Reconhecer que Deus existe e age na nossa vida não é só uma consequência de um raciocínio logico, mas de uma graça. E o mal que sempre nos faz questionar a existência de Deus é somente a chave para abrir a porta da verdadeira felicidade. Algum ateu está lendo ou escutando esta reflexão e no fundo do seu coração está pensando como escrevia Chesterton: “Bem-aventurados os que nada esperam porque não serão defraudados”. Porém não esqueçamos que o mesmo Chesterton se converteu e ele mesmo responde a esse ateu dizendo: “Bem-aventurados os que nada esperam porque se alegrarão com todas as coisas”. Quem crê vive feliz porque Deus está do seu lado e qualquer sofrimento com Deus se torna um caminho seguro e rápido para alcançar a nossa meta: o céu.

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